Como funciona uma formulação cosmética: do zero ao produto final
- 16 de jan.
- 4 min de leitura

Quando pegamos um cosmético pronto na prateleira — um xampú, um creme facial ou um sabonete líquido — é fácil esquecer o quanto de ciência, testes e decisões estratégicas existem por trás daquele frasco. A formulação cosmética é um processo que une química, biologia, regulamentação, mercado e, claro, experiência do consumidor.
Neste artigo, vamos percorrer todo o caminho de uma formulação cosmética: desde a ideia inicial até o produto final pronto para venda.
1. Tudo começa com uma necessidade
Toda formulação nasce de uma pergunta simples:
Qual problema esse produto vai resolver?
Pode ser reduzir oleosidade da pele, hidratar cabelos danificados, limpar sem agredir, controlar odores ou entregar um sensorial diferenciado. Aqui entram fatores como:
Público-alvo (tipo de pele, cabelo, faixa etária)
Posicionamento de mercado (popular, premium, profissional)
Tendências (ativos naturais, veganos, multifuncionais)
Restrições regulatórias e claims permitidos
Essa etapa define o “DNA” do produto. Uma formulação bem-sucedida começa muito antes do laboratório.
2. Definição do tipo de produto
Com o objetivo claro, o formulador define o sistema cosmético mais adequado. Alguns exemplos:
Emulsão (cremes e loções)
Solução aquosa ou alcoólica (tônicos, perfumes)
Gel (produtos faciais, capilares)
Sistema tensoativo (xampú, sabonetes líquidos)
Cada sistema tem desafios próprios de estabilidade, compatibilidade e sensorial. Um creme hidratante facial, por exemplo, exige uma abordagem completamente diferente de um detergente cosmético.
3. Escolha das matérias-primas
Aqui a química entra em cena de forma intensa. As matérias-primas são escolhidas com base em função, compatibilidade e desempenho.
Principais grupos de ingredientes:
Veículo: geralmente água purificada
Tensoativos: responsáveis pela limpeza
Emolientes: promovem maciez e toque agradável
Espessantes e reológicos: ajustam viscosidade e textura
Ativos cosméticos: entregam benefícios específicos
Conservantes: garantem segurança microbiológica
Fragrância e corantes: experiência sensorial
Não basta escolher bons ingredientes isoladamente. Eles precisam de sinergia, sem instabilidade, precipitação ou perda de eficácia (um risco comum e que custa caro).
4. Desenvolvimento da fórmula no laboratório
Com os ingredientes definidos, começa a fase prática: formular, testar e ajustar.
O formulador prepara a primeira versão seguindo uma ordem lógica de adição, controle de temperatura, agitação e tempo de mistura. Raramente a primeira versão é a final.
Nesta fase, são avaliados:
Aparência (cor, brilho, homogeneidade)
Textura e espalhabilidade
Espuma (quando aplicável)
Odor e a estabilidade do odor
Facilidade de aplicação e remoção
Pequenos ajustes fazem grande diferença: alterar 0,2% de um espessante ou trocar um tensoativo pode transformar completamente o produto.
5. Ajustes de pH e compatibilidade
O pH é um fator crítico em cosméticos. Ele precisa ser:
Seguro para a pele ou cabelo
Compatível com os ativos
Estável ao longo do tempo
Um pH fora da faixa ideal pode causar irritação, reduzir a eficácia do produto ou até desestabilizar a fórmula. Por isso, medições e correções fazem parte da rotina de desenvolvimento. O Prazo de estabilidade é nosso próximo dever.
6. Testes de estabilidade
Antes de qualquer produto chegar ao consumidor, ele precisa provar que resiste ao tempo.
Os testes de estabilidade simulam diferentes condições:
Altas e baixas temperaturas
Ciclos de aquecimento e resfriamento
Exposição à luz
Armazenamento prolongado
Durante esses testes, o formulador observa se ocorrem:
Separação de fases
Alteração de cor ou odor
Perda de viscosidade
Turvação ou precipitação
Uma fórmula bonita no primeiro dia, mas instável após 30 dias, não é viável comercialmente.
7. Avaliação microbiológica e segurança
A segurança do consumidor é prioridade absoluta.
São realizados testes para verificar se o sistema conservante é eficaz contra bactérias, fungos e leveduras. Dependendo do produto, também podem ser exigidos:
Testes dermatológicos
Testes oftalmológicos
Avaliação de irritabilidade
Sem aprovação nessa etapa, o produto simplesmente não avança. Nosso laboratório de microbiologia garante segurança a nossos produtos!
8. Adequação regulatória
No Brasil, os cosméticos devem seguir as normas da ANVISA. Isso inclui:
Uso apenas de ingredientes permitidos
Respeito às concentrações máximas
Classificação correta do produto (grau 1 ou grau 2)
Rotulagem adequada e clara
A fórmula pode ser tecnicamente excelente, mas se não estiver em conformidade com a legislação, ela não pode ser comercializada.
9. Escalonamento industrial
Uma fórmula que funciona em bancada precisa funcionar em escala industrial.
Nesta etapa, o desafio é reproduzir o mesmo resultado em tanques maiores, considerando:
Tipo de agitador
Tempo de mistura
Ordem de adição
Controle de temperatura
Nem toda fórmula de laboratório se comporta bem na indústria, e ajustes finos são comuns nessa fase.
10. Produto final e experiência do consumidor
Com a produção validada, o cosmético chega ao consumidor final. Mas o trabalho não termina aí.
Feedbacks de mercado ajudam a entender:
Aceitação do sensorial
Desempenho percebido
Possíveis melhorias futuras
Uma boa formulação cosmética não é apenas estável e segura — ela encanta, gera confiança e entrega o que promete.
Conclusão
A formulação cosmética é um processo multidisciplinar que vai muito além de misturar ingredientes. Ela envolve ciência, estratégia, regulamentação e sensibilidade ao consumidor.
Do conceito inicial ao produto final, cada detalhe importa. É esse cuidado técnico e criativo que transforma uma ideia em um cosmético de sucesso no mercado.
Se você trabalha ou se interessa pelo universo cosmético, entender esse processo é essencial para valorizar o que existe dentro de cada frasco.
Nós da Smart química estamos com as portas abertas para compartilhar nosso conhecimento com você!

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